domingo ,22 Abril 2018
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Sexo, drogas e Minecraft: ‘Novelinhas’ ganham fãs e críticas no YouTube

 Vídeos mostram personagens em tramas violentas; veja exemplos.

‘Me arrependo de alguns vídeos’, diz youtuber que publicou cena de estupro.

 Imagem que abre vídeo do canal RezendeEvil (Foto: Reprodução/Youtube/RezendeEvil)
Imagem que abre vídeo do canal RezendeEvil tem um homem e duas mulheres deitados nus em uma cama (Foto: Reprodução/Youtube/RezendeEvil)

No início deste ano, o site de vídeos pornográficos Pornhub divulgou que as buscas pelo termo “Minecraft” cresceram 326% entre usuários desde janeiro de 2014. Achou estranho? Pois saiba que, para encontrar os seres feitos com blocos em situações sexuais, nem é preciso visitar um site só de conteúdo adulto.

Simulações de sexo entre personagens do jogo que se tornou fenômeno e cenas de violência e uso de drogas estão no YouTube, ao fácil alcance de crianças. É comum ver essas “novelinhas” criadas por youtubers com personagens de Minecraft, o jogo de blocos da Microsoft, entre os vídeos mais assistidos do site.

“Confesso que me arrependo de algumas publicações”, diz André Trujilio, dono do canal Super99andre, com mais de 450 mil inscritos. Um dos vídeos de sua série “Escola sexo“, que não está mais disponível, mostrava uma cena de estupro, seguido de assassinato com personagens de “Minecraft”.

Uma outra publicação, ainda no ar, exibe simulação de sexo em uma escola. Entre seus títulos, estão ainda “Fui estuprado por um mendigo” e “Professor tarado fazendo e ensinandosexo“. “Naquela época, não tinha noção do que aquilo poderia causar. Para mim era uma brincadeira”, lembra.

Ele afirma que seu público majoritário tem entre 18 e 24 anos – o YouTube fornece a informação aos donos dos canais -, mas que o número de assinantes mais novos tem crescido. Por isso, explica, mudou o enfoque do conteúdo. “Comecei a evitar algumas cenas e palavras. Tento fazer algo que atenda a todos os públicos.”

Em uma escola, garotas tomam banho enquanto meninos assistem em historinha do canal Super99andre (Foto: Reprodução/Youtube/Super99andre)Em uma escola, garotas tomam banho enquanto meninos assistem em historinha do canal Super99andre (Foto: Reprodução/Youtube/Super99andre)

Juiz do YouTube?
Uma busca rápida na plataforma de vídeos leva ainda a cenas de uso de cocaína, um bebê se masturbando, um garoto espiando uma garota nua, agressão de mulheres e mais sexo na escola – tudo com seres de “Minecraft” (veja nos gifs acima e abaixo). Alguns dos vídeos são marcados pelos donos dos canais com restrição etária, que obriga o usuário a confirmar sua idade através de um login no Google antes de assisti-los. Ao criar uma conta, porém, é possível informar uma falsa data de nascimento.

O assunto foi tema de um vídeo publicado em julho por Rafael Lange, o Cellbit, que listou historinhas de “Minecraft” com conteúdo considerado impróprio para crianças disponíveis no Youtube. Ele acabou trocando farpas no Twitter com o youtuber Pedro Afonso, o RezendeEvil, que o chamou de “juiz do YouTube”. “Criticar outros youtubers é tabu”, avalia Cellbit, que conta que há algum tempo o problema era discutido no meio.

Professor dá "aula de sexo" e agride garota em vídeo do canal Super99andre (Foto: Reprodução/Youtube/Super99andre)
Professor dá ‘aula de sexo‘ e agride garota em vídeo do canal Super99andre (Foto: Reprodução/Youtube/Super99andre)

Lições de moral?
Com mais de 8 milhões de inscritos em seu canal, Rezende já publicou historinhas com conteúdo violento. A maioria de seus assinantes tem entre cinco e 13 anos, segundo ele. Por isso, ele diz tentar evitar palavrões e cenas mais fortes.

Mesmo assim, criou tramas como “Minha mãe apanhou”, “Meu pai me pegou bêbado” e a série “Pelados”, em que os personagens do jogo aparecem sem roupa. “Meu objetivo é mostrar a realidade, e com isso falar com a criança. Alguém de 12 anos pode saber que, se com 18 ela beber, pegar um carro e batê-lo, a culpa é dela”, explica Rezende.

“A intenção é passar uma lição à criança ou pré-adolescente. É complicado porque tenho que alimentar os dois públicos, o mais novo e o mais velho. Se publicar só o conteúdo mais infantil, os outros assinantes não vão gostar”, acrescenta.

Classificação indicativa
No Brasil, “Minecraft” recebeu classificação livre do Ministério da Justiça, não há restrição de idade para jogar. O setor responsável pela avaliação de filmes, séries, programas de TV, jogos e RPG não analisa vídeos publicados no Youtube. Conforme estabelece o Marco Civil da Internet, usuários têm liberdade para navegar por conteúdos que estejam dentro da lei.

Alessandra Nunes, diretora adjunta do Departamento de Justiça do ministério, diz que a discussão sobre a competência pública dos posts no YouTube já existiu, mas foi encerrada com a aprovação do Marco Civil, em 2014.

O site de vídeos do Google não classifica suas publicações, e depende de denúncias feitas pela comunidade para regular seu conteúdo. “Não pedimos o tipo de respeito reservado a freiras, idosos e neurocirurgiões. Basta se comportar educadamente no site”, diz o texto que esclarece as diretrizes do serviço. Nudez, ameaças, incitação ao ódio, conteúdo sexual, prejudicial, perigoso, explícito, violento ou que infringe os direitos autorais são proibidos.

Procurada pelo G1, o Google informou que cada denúncia é avaliada por um profissional do YouTube. Caso a publicação seja considerada inapropriada, o responsável pode sofrer punições que vão desde notificação até o banimento da conta, em casos mais graves.

Imagem que abre vídeo do canal RezendeEvil (Foto: Reprodução/Instagram/RezendeEvil)
Imagem que abre vídeo do canal RezendeEvil mostra bebê sendo atropelado (Foto: Reprodução/Instagram/RezendeEvil)

Alerta aos pais
Para a professora da PUC-SP na área de tecnologias na educação Maria Elizabeth de Almeida, a exposição de crianças a esse tipo de conteúdo pode ser perigosa porque, muitas vezes, elas demoram para diferenciar realidade e fantasia. “À medida que ela vai se desenvolvendo, vai fazendo esse discernimento. É preciso preservar a fantasia da criança, mas ao mesmo tempo fazer uma análise cuidadosa [da ficção], inclusive em relação a aspectos éticos”, explica.

Na opinião da especialista, é dos pais, e não das empresas que lidam com internet, a maior resposabilidade sobre o que os jovens consomem on-line. “Não é possível haver uma regra geral, ou vamos ter que tirar tudo do mercado, censurar”, explica. “Antes de liberar, os pais precisam analisar esse material, para decidir o que deve ser filtrado. Também é importante haver diálogo.”

Cellbit, que suscitou a discussão pública sobre o assunto, concorda: “O bom da internet é justamente ser livre, não dá para censurar. O objetivo do meu vídeo não era tentar parar ninguém, mas expor a mensagem para os pais, para que eles procurem saber sobre os canais que os filhos assistem.”

Vídeo canal WiiFer0iiz mostra garoto se passando por menina para espiar amigas nuas (Foto: Reprodução/Youtube/WiiFer0iiz)Vídeo no canal WiiFer0iiz mostra garoto se passando por menina para espiar amigas nuas (Foto: Reprodução/Youtube/WiiFer0iiz)
Dois personagens masculinos fazem sexo em vídeo do canal FentomMaster (Foto: Reprodução/Youtube/FentomMaster)
Dois personagens masculinos fazem sexo em vídeo do canal FentomMaster (Foto: Reprodução/Youtube/FentomMaster)

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